O Maníaco e a Imprensa


Por: Larissa Caruso

A tensão na atmosfera do escritório era palpável. Vozes exaltadas, telefones disparados, e xingamentos constantes tornavam-se rotina na improvisada sala de investigação criminal. A melhor equipe do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoas de São Paulo se reunia para investigar o assassino em série que assombrava os cidadãos, e principalmente, as mulheres.

– E ai? O que descobriu, Marciel? – perguntou o delegado, impaciente.

– Nada, chefe.

E continua a busca pelo Maníaco da Praça. – anunciava o repórter na TV em um tom dramático – Há uma semana foi encontrado o corpo da estudante Luciana Medeiros. Acreditamos que se trata da décima segunda vítima do maníaco que ronda as praças desertas a procura de presas fáceis…

– Como nada, cara? – bradou o encarregado das investigações, cruzando os braços – O que eu vou falar pra esses pentelhos? – e apontou para a TV de forma brusca, classificando o principal sujeito de suas preocupações.

– O malandro não deixa pistas. Ninguém viu nada.

– Mas que inferno… esses putos – gesticulou o delegado irritado – Por que eles não arrumam mais o que fazer? Ficam de bico atrapalhando meu caso.

…e sabemos que o maníaco está a procura de mulheres belas e independentes, normalmente de cabelos escuros e encaracolados. Todas na faixa etária de 18 a 25 anos. A primeira ocorrência sempre trata de um desaparecimento. Algum tempo depois, o corpo é encontrado jogado em uma praça da cidade, com marcas de estrangulamento e resquícios de clorofórmio em sua pele.

Ao ouvir tal informação, diversos investigadores focaram sua atenção na reportagem que era narrada por um rapaz de trinta e poucos anos, de aparência carismática com seus olhos azuis e cabelos castanhos.

– Eles tão divulgando informação confidencial! – resmungou um dos policiais – Nós tínhamos um trato com eles!

… depois das oito da noite as moças devem evitar circular desacompanhadas pelas ruas.

O desgraçado vai colocar a cidade inteira em pânico! – exclamou o outro, boquiaberto.

– Talvez isso fizesse com que as mulheres fossem mais cuidadosas. – grunhiu Josivaldo e continuou, olhando para seu relógio – E olha a hora. Quem fica acordado para ver um programa desses? Ele é um Zé Ninguém, Junior. Teremos que nos preocupar quando os verdadeiros noticiários desfizerem nosso acordo.

– O que vai ser logo, já que um tomou coragem.

E a partir de amanhã iniciaremos um documentário que mostrará as “Quase Vítimas” desse maníaco. Mulheres com o mesmo perfil que escapam diariamente de suas garras e…

– Desliga essa porcaria, já! – bradou o delegado, batendo na mesa.
***

Sentado no banco do motorista, ele observava seus arredores com um olhar semi-entediado. A desertidão próxima à praça onde sua van estava estacionada o deixava alegre e ao mesmo tempo depressivo. Detestava a maneira como as mulheres novas se portavam, com independência e despreocupação. Ignoravam o fato de que um homem perigoso circulava as ruas, procurando pelas menos preparadas para fazê-las suas vitimas. Não aceitavam mais a proteção e os mimos de um cavalheiro. Ignoravam os méritos da família patriarcal.

Estavam tão focadas em serem tratadas iguais que se esqueciam que, em termos de força e malicia, encontrava-se em desvantagem. Suspirando, perguntou-se se o vazio naquele local era mera coincidência ou se o medo finalmente começava a demonstrar seus sinais na sociedade. Quando perdeu a esperança de uma boa noite de caça foi que viu uma moça de aproximadamente 1,60m de altura, com cabelos longos e encaracolados. Vestia um simples jeans e uma camiseta, que pouco mostrava as curvas de seu corpo. Apesar disso, serviria.

De maneira cuidadosa, verificou suas ferramentas de trabalho, finalizando com o cordão de nylon que se encontrava folgadamente ao redor de seu pescoço. Então, ligou a câmera apoiada no painel do carro. Quando se certificou que estava gravando, bateu no ombro de seu companheiro, que mal se mexeu no banco de passageiro.

– Ao trabalho. – murmurou, saindo do carro.

Aproximou-se da moça com cautela. Antes que pudesse surpreendê-la, ela se virou, deparando-se com ele. Sobressaltada, deu um pulo. Imediatamente ele a acalmou, dizendo:

– Desculpe. Não quis assustá-la.

Ainda desconfiada, a mulher deu um passo para trás, estreitando os olhos enquanto o fitava. Sem acreditar, levou as mãos à boca e exclamou:

– Luciano Fabricio do SBT?

Por um momento, o homem ficou surpreso que ela o reconhecera. Poucos assistiam àquela porcaria que chamavam de programa investigativo.

– Sim, sou eu mesmo. – respondeu ele, sorrindo amigavelmente – Assiste o meu programa?

– Sim, depois que eu volto da faculdade.

Sentiu-se lisonjeado.

– Você é da vizinhança?

Ela balançou a cabeça negativamente.

– Você viu meu programa de ontem? – e continuou antes que respondesse – Sabia que sua aparência e o local onde se encontra correspondem ao perfil do assassino em série que a policia vem escondendo informações a respeito?

– Assassino em série? Aqui? – respondeu ela, desacreditando em suas palavras – Eu passo aqui todos os dias há anos. Nunca tive problemas.

– Pois é exatamente disso que o documentário “Quase Vítimas” irá tratar. Refletirá a noite de mulheres que poderiam ser alvo do maníaco da praça devido ao seu descuido, mas que, por sorte, não são atacadas, estupradas e mortas.

A moça inalou profundamente ao ouvir as três últimas palavras, observando seus arredores com uma pitada de medo em seu olhar. Fingindo não perceber sua reação, ele continuou com a explicação:

– Meu companheiro está com a câmera ligada. Observávamos a sua passagem e agora gostaríamos de entrevistá-la, perguntando como leva seu cotidiano apesar de existir um assassino a solta.

Apontando em direção a van, ele deixou com que ela examinasse o carro com cuidado. Mesmo parada em um lugar relativamente pouco iluminado, ainda era possível distinguir o símbolo da rede televisa para qual trabalhava pintado em ambos os lados. A luz interna, acesa, mostrava a silhueta de seu companheiro de boné sentado no banco de passageiro. A câmera, com um brilho vermelho piscante, indicava que ainda estava gravando.

Esperou até que ela se certificasse de tudo e então perguntou:

– Vamos? Precisarei que assine uma autorização para a divulgação de sua imagem, independente de aceitar que eu a entreviste ou não.

Queria deixar claro que ela possuía uma escolha. Não era seu intuito assustá-la. Ela pareceu hesitar por alguns momentos e finalmente, assentiu. Sorrindo, ele a guiou até o carro.

***

Ela arregalou os olhos ao aproximar-se da van. Sentiu seu coração parar por um breve segundo, e então acelerar, pronto para explodir. Focou a atenção no interior do carro, tentando confirmar sua desconfiança. Identificou o rosto de plástico do manequim sentado no banco de passageiro, vestindo roupas velhas e um boné. Foi então que entendeu.

Desesperada, tentou correr. O homem, entretanto, segurou seu braço. Pensou em gritar, mas antes que pudesse fazê-lo sentiu um pano branco mal cheiroso encostando-se a sua boca e nariz. O cheiro forte de produto químico a fez cambalear e as pernas enfraqueceram. A visão tornou-se turva, e o pânico a dominou. Debateu-se, tentando reencontrar sua liberdade. Sentiu os lábios do apresentador tocando a pele de seu pescoço, e um sussurro vindo de sua boca a fez tremer:

– Você achou que ser famoso era sinônimo de ser normal? Te peguei.

E sem mais forças, sua consciência sucumbiu à escuridão.

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2 Responses to O Maníaco e a Imprensa

  1. […] View post: O Maníaco e a Imprensa « Ficção Científica versus Realidade […]

  2. Sora disse:

    Ás vezes as aparências enganam, e esse maníaco sabia muito bem disso. Adorei o conto, Larissa!

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