O Maníaco e a Imprensa

12/07/2010

Por: Larissa Caruso

A tensão na atmosfera do escritório era palpável. Vozes exaltadas, telefones disparados, e xingamentos constantes tornavam-se rotina na improvisada sala de investigação criminal. A melhor equipe do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoas de São Paulo se reunia para investigar o assassino em série que assombrava os cidadãos, e principalmente, as mulheres.

– E ai? O que descobriu, Marciel? – perguntou o delegado, impaciente.

– Nada, chefe.

E continua a busca pelo Maníaco da Praça. – anunciava o repórter na TV em um tom dramático – Há uma semana foi encontrado o corpo da estudante Luciana Medeiros. Acreditamos que se trata da décima segunda vítima do maníaco que ronda as praças desertas a procura de presas fáceis…

– Como nada, cara? – bradou o encarregado das investigações, cruzando os braços – O que eu vou falar pra esses pentelhos? – e apontou para a TV de forma brusca, classificando o principal sujeito de suas preocupações.

– O malandro não deixa pistas. Ninguém viu nada.

– Mas que inferno… esses putos – gesticulou o delegado irritado – Por que eles não arrumam mais o que fazer? Ficam de bico atrapalhando meu caso.

…e sabemos que o maníaco está a procura de mulheres belas e independentes, normalmente de cabelos escuros e encaracolados. Todas na faixa etária de 18 a 25 anos. A primeira ocorrência sempre trata de um desaparecimento. Algum tempo depois, o corpo é encontrado jogado em uma praça da cidade, com marcas de estrangulamento e resquícios de clorofórmio em sua pele.

Ao ouvir tal informação, diversos investigadores focaram sua atenção na reportagem que era narrada por um rapaz de trinta e poucos anos, de aparência carismática com seus olhos azuis e cabelos castanhos.

– Eles tão divulgando informação confidencial! – resmungou um dos policiais – Nós tínhamos um trato com eles!

… depois das oito da noite as moças devem evitar circular desacompanhadas pelas ruas.

O desgraçado vai colocar a cidade inteira em pânico! – exclamou o outro, boquiaberto.

– Talvez isso fizesse com que as mulheres fossem mais cuidadosas. – grunhiu Josivaldo e continuou, olhando para seu relógio – E olha a hora. Quem fica acordado para ver um programa desses? Ele é um Zé Ninguém, Junior. Teremos que nos preocupar quando os verdadeiros noticiários desfizerem nosso acordo.

– O que vai ser logo, já que um tomou coragem.

E a partir de amanhã iniciaremos um documentário que mostrará as “Quase Vítimas” desse maníaco. Mulheres com o mesmo perfil que escapam diariamente de suas garras e…

– Desliga essa porcaria, já! – bradou o delegado, batendo na mesa.
***

Sentado no banco do motorista, ele observava seus arredores com um olhar semi-entediado. A desertidão próxima à praça onde sua van estava estacionada o deixava alegre e ao mesmo tempo depressivo. Detestava a maneira como as mulheres novas se portavam, com independência e despreocupação. Ignoravam o fato de que um homem perigoso circulava as ruas, procurando pelas menos preparadas para fazê-las suas vitimas. Não aceitavam mais a proteção e os mimos de um cavalheiro. Ignoravam os méritos da família patriarcal.

Estavam tão focadas em serem tratadas iguais que se esqueciam que, em termos de força e malicia, encontrava-se em desvantagem. Suspirando, perguntou-se se o vazio naquele local era mera coincidência ou se o medo finalmente começava a demonstrar seus sinais na sociedade. Quando perdeu a esperança de uma boa noite de caça foi que viu uma moça de aproximadamente 1,60m de altura, com cabelos longos e encaracolados. Vestia um simples jeans e uma camiseta, que pouco mostrava as curvas de seu corpo. Apesar disso, serviria.

De maneira cuidadosa, verificou suas ferramentas de trabalho, finalizando com o cordão de nylon que se encontrava folgadamente ao redor de seu pescoço. Então, ligou a câmera apoiada no painel do carro. Quando se certificou que estava gravando, bateu no ombro de seu companheiro, que mal se mexeu no banco de passageiro.

– Ao trabalho. – murmurou, saindo do carro.

Aproximou-se da moça com cautela. Antes que pudesse surpreendê-la, ela se virou, deparando-se com ele. Sobressaltada, deu um pulo. Imediatamente ele a acalmou, dizendo:

– Desculpe. Não quis assustá-la.

Ainda desconfiada, a mulher deu um passo para trás, estreitando os olhos enquanto o fitava. Sem acreditar, levou as mãos à boca e exclamou:

– Luciano Fabricio do SBT?

Por um momento, o homem ficou surpreso que ela o reconhecera. Poucos assistiam àquela porcaria que chamavam de programa investigativo.

– Sim, sou eu mesmo. – respondeu ele, sorrindo amigavelmente – Assiste o meu programa?

– Sim, depois que eu volto da faculdade.

Sentiu-se lisonjeado.

– Você é da vizinhança?

Ela balançou a cabeça negativamente.

– Você viu meu programa de ontem? – e continuou antes que respondesse – Sabia que sua aparência e o local onde se encontra correspondem ao perfil do assassino em série que a policia vem escondendo informações a respeito?

– Assassino em série? Aqui? – respondeu ela, desacreditando em suas palavras – Eu passo aqui todos os dias há anos. Nunca tive problemas.

– Pois é exatamente disso que o documentário “Quase Vítimas” irá tratar. Refletirá a noite de mulheres que poderiam ser alvo do maníaco da praça devido ao seu descuido, mas que, por sorte, não são atacadas, estupradas e mortas.

A moça inalou profundamente ao ouvir as três últimas palavras, observando seus arredores com uma pitada de medo em seu olhar. Fingindo não perceber sua reação, ele continuou com a explicação:

– Meu companheiro está com a câmera ligada. Observávamos a sua passagem e agora gostaríamos de entrevistá-la, perguntando como leva seu cotidiano apesar de existir um assassino a solta.

Apontando em direção a van, ele deixou com que ela examinasse o carro com cuidado. Mesmo parada em um lugar relativamente pouco iluminado, ainda era possível distinguir o símbolo da rede televisa para qual trabalhava pintado em ambos os lados. A luz interna, acesa, mostrava a silhueta de seu companheiro de boné sentado no banco de passageiro. A câmera, com um brilho vermelho piscante, indicava que ainda estava gravando.

Esperou até que ela se certificasse de tudo e então perguntou:

– Vamos? Precisarei que assine uma autorização para a divulgação de sua imagem, independente de aceitar que eu a entreviste ou não.

Queria deixar claro que ela possuía uma escolha. Não era seu intuito assustá-la. Ela pareceu hesitar por alguns momentos e finalmente, assentiu. Sorrindo, ele a guiou até o carro.

***

Ela arregalou os olhos ao aproximar-se da van. Sentiu seu coração parar por um breve segundo, e então acelerar, pronto para explodir. Focou a atenção no interior do carro, tentando confirmar sua desconfiança. Identificou o rosto de plástico do manequim sentado no banco de passageiro, vestindo roupas velhas e um boné. Foi então que entendeu.

Desesperada, tentou correr. O homem, entretanto, segurou seu braço. Pensou em gritar, mas antes que pudesse fazê-lo sentiu um pano branco mal cheiroso encostando-se a sua boca e nariz. O cheiro forte de produto químico a fez cambalear e as pernas enfraqueceram. A visão tornou-se turva, e o pânico a dominou. Debateu-se, tentando reencontrar sua liberdade. Sentiu os lábios do apresentador tocando a pele de seu pescoço, e um sussurro vindo de sua boca a fez tremer:

– Você achou que ser famoso era sinônimo de ser normal? Te peguei.

E sem mais forças, sua consciência sucumbiu à escuridão.


NOVO MUNDO, NOVA VIDA

05/07/2010

Por: Larissa Caruso

Nota: Esse conto faz parte do universo do romance Nébula de um Buraco Negro, que pode ser lido através do link http://www.larissacaruso.com/nebula.pdf

Um homem alto encontrava-se em uma mesa metálica flutuante, com as finas membranas de seus glóbulos oculares fechadas.  Sua pele azulada possuía um tom esbranquiçado, indicando palidez para os de sua raça. As mãos de caranguejo eram restringidas por duas grandes bolhas de um gel amarelo, que o impediam de usar suas perigosas presas. Os sinais vitais e sua fisiologia eram monitorados por hologramas 3D, que indicavam um estado de repouso estável.

− Tempo estimado para o término de inserção de memórias: dois minutos e trinta e seis segundos. – anunciou o computador para a sala, enquanto os cientistas continuavam seu trabalho.

− E depois, o que ficará faltando? – perguntou o menos experiente, deixando aparentar seu nervosismo.

− Nada. Os pais foram informados de sua morte, juntamente com a de sua irmã. A nova identidade já foi inserida no sistema. Sua memória foi apagada e estamos terminando de reconstruí-la. Assim que finalizarmos a alocação do módulo fantasma em seu cérebro, poderemos liberá-lo.

− Qual seria esse módulo?

Em um tom exasperado, o homem respondeu ao novato:

− É um organismo sintético que inibe as sinapses, limitando a capacidade cognitiva do indivíduo.

O cientista mais jovem assentiu após o término da explicação, distraindo-se com o 3D que mostrava as informações neurais do paciente. Arregalou os olhos ao perceber seu potencial bruto e balançou a cabeça, exclamando:

− Marjeberz! Não é a toa que querem limitar a inteligência desse cara. O potencial bruto dele para desenvolvimento de atividades cognitivas é absurdamente alto.

− Sim. – respondeu o cientista sênior em um tom sombrio

Colocando suas informações na tela principal, ele observou tudo o que dizia seus arquivos e balançou a cabeça:

– Fraude, venda de informações confidenciais, quebra de sigilo profissional, desenvolvimento e venda de tecnologia ilícita, roubo, desvio comportamental, distúrbio psicológico nível 8… Eu não sei por que simplesmente não o levam pra prisão Crismaline, se ele realmente fez tudo o que é relatado em sua ficha.

− Provavelmente eles ainda têm algum plano envolvendo ele. O Centro de Pesquisas Avançadas de Alderon é extremamente frio e calculista. Você sabe bem disso.

− Sim, infelizmente. – confirmou, com um suspiro.

− E pra onde irão leva-lo? – perguntou o rapaz, demonstrando a pena que sentia daquele sujeito deitado em sua maca.

− Confidencial. Um ou dois dentro do CAPA sabem. Provavelmente algum deserto onde ele não possa causar muitos problemas. Talvez um dos planetas do Sistema Solar.

−A Terra? – perguntou, já que este era o único que lembrava.

− Ah. Eles não são estúpidos. Seria arriscado demais para os humanos e para a galáxia.

***

− Preparado para sua nova vida? – perguntou o rapaz da cabine, pegando o chip de dentro da caixa azul-metálica.

− Sim! – respondeu o homem com patas de caranguejo, demonstrando sua empolgação – Finalmente vou poder trabalhar com tecnologia. Eu não acredito nisso! Depois de anos sendo limitado pela minha família.

− Certo. Não se exalte. Os avanços desse planeta ainda são limitados e mesmo o Centro de Imigração não contará com muitos recursos. – advertiu o profissional, oferecendo-lhe seu melhor sorriso artificial.

Levando o chip até a têmpora do rapaz, ele observou o material se dissolvendo contra a pele azulada e inserindo-se dentro de seu cérebro. Logo em seguida, repetiu o processo com outro micro-objeto, colocando-o contra seu peito.

Sentiu seu corpo queimar enquanto seus órgãos vitais eram adaptados à vida naquele novo mundo que faria parte. No monitor 3D, viu algo crescendo dentro de seu torso, criando as modificações necessárias para que sobrevivesse sem ajuda de nenhum outro equipamento.

Assim que a sensação de mal estar o deixou, sabia que estava pronto. Respirou fundo, tentando conter a ansiedade dentro de si. Por anos havia sido privado de uma vida interessante em seu planeta natal. Sabia que possuía um grande potencial, entretanto, seus pais não permitiam que o desenvolvesse. Após a morte da irmã, tornaram-se ainda mais protetores e zelosos.

Sentia-se mal por tê-los deixado às escondidas, mas não tivera outra escolha. Não desperdiçaria todo o tempo que possuía em uma vida sem graça e primitiva. Havia aceitado um trabalho ruim e mal pago, normalmente oferecido à ex-criminosos. Seria maltratado e menosprezado. Nada disso importava para ele, entretanto. Como engenheiro chefe, tomaria conta do centro de pesquisa e finalmente colocaria suas mãos em alguns equipamentos avançados. Mais que isso, estaria ajudando a Confederação de Planetas da Via Láctea a manter a paz e a ordem em seu novo lar.

− Qual o seu nome, rapaz? – perguntou o instrutor, sorrindo de maneira artificial.

− Daelus Poshr. – respondeu, acionando os dedos biônicos de sua pata direita, para poder cumprimenta-lo com um aperto de mão.

O responsável por sua relocação ignorou o gesto, focando sua atenção no pequeno computador de bolso que segurava.

− Certo, certo. O Centro de Imigração já foi informado de sua chegada. Seu pacote de boas vindas e chips informativos estarão com a secretária Mincy Shnoper.

− E para onde estou indo? – perguntou, ansioso.

− Para a Terra.


DIFÍCIL RECOMEÇO… OU TALVEZ NÃO.

21/06/2010

Por: Larissa Caruso

O homem de estatura baixa, com uma barriga proeminente, abriu a porta do hangar, dando um passo em direção à rua. Seus poucos cabelos esvoaçavam com brisa vespertina da cidade de Austin, Texas. Com olhos curiosos, ele observou aqueles que residiam em seu novo lar. A escolha de vestuário da maioria dos habitantes era limitada. Ao examinar mais de perto, percebeu a inexistência de qualquer tipo de ferramenta que os proporcionasse com uma mudança rápida de roupa. Olhou para o pequeno botão azul no colarinho de sua camisa e tentou se imaginar um dia inteiro sem modificar suas vestimentas de acordo com a ocasião, ou o clima. Faz uma careta, condenando tal possibilidade.

Virou-se para examinar a vitrine de uma loja e, examinando seu reflexo, percebeu que estava parecido com os terráqueos. Observou o bracelete em seu pulso e amaldiçoou seu destino. Nem assim conseguia sentir-se atraente. Em seu planeta, era visto como um ser pouco viril, devido ao fato de possuir em seu tronco somente três bolsas de armazenamento de ahsuere, o líquido vital para a reprodução de sua espécie. Sendo pequeno e mirrado, não era bem quisto. Aqui, dificilmente seria diferente. Frustrado, suspirou, e continuou sua caminhada.

O bracelete que usada chamava-se ARC, Alderon Reestruturador Conduíte. Era utilizado para esconder a aparência real dos alienígenas que viviam entre os seres primitivos de planetas menos desenvolvidos. Os humanos nem sequer imaginavam o que os esperava na galáxia a fora. Achavam que a vida se limitava a esse buraco primitivo, quando, na verdade, existia até mesmo um governo que unificava todos os planetas habitados da Via Láctea.

Não havia sido sua escolha mudar-se para a Terra, mas era uma opção melhor quando comparada à prisão Crismaline. A pior parte para ele era, talvez, não ter o contato com a tecnologia que o provia com tanto conforto e conveniência.  Criminosos como ele, poderiam receber uma segunda chance e serem enviados para planetas primitivos, onde trabalhariam em setores públicos menos quistos do governo intergaláctico. Em seu caso, seria o responsável pelo Departamento de Controle de Imigrantes no Centro de Imigração Intergaláctica de Austin. Seu trabalho era manter os alienígenas que moravam na Terra sob controle. Ele os monitoraria para ter certeza que não burlariam ou desrespeitariam as regras impostas pela Confederação de Planetas da Via Láctea.

Com as mãos nos bolsos e um olhar cabisbaixo, ele continuou a caminhar, procurando por algum sinal de tecnologia avançada neste lugar. As propagandas eram feitas com grandes cartazes na rua, extremamente ineficaz e sujo quando comparado ao método holográfico e customizado de muitos planetas. Os meios de transporte eram grandes e limitados ao chão. Os poucos que rondavam os céus faziam barulho demais e pareciam ser incapazes de voar acima de certa altura.

Ouviu um alto assovio e perguntou-se se seu bracelete estava na frequência certa para traduzir a linguagem utilizada por aqueles seres. Olhando em direção ao barulho, percebeu que uma fêmea o observava de maneira intrigada. Perguntou-se se havia esquecido algum comando ou preparação pós-chegada. Suas sobrancelhas arquearam quando ela continuou a fita-lo. Sentiu-se intimidado por aquele tipo de comportamento. Não parecia algo normal.

Gotas de suor escorreram em seu rosto, revelando o nervosismo que se acumulava dentro de si. Direcionando o olhar para frente novamente, apertou o passo, continuando sua caminhada. Dispôs-se a cruzar uma larga avenida, interessado em uma visão diferente do local. Barulhos estrondosos de buzinas soaram de repente, enquanto grandes máquinas zuniram em alta velocidade ao seu redor, ignorando sua presença. Um transporte alto e retangular, que mais parecia um container, quase o acertou, mas ele desviou no último minuto. Correndo para o outro lado, procurou abrigo no conforto daquele piso diferente, mais alto e menos assustador.

Sentia-se ultrajado. Que tipo de lugar era esse que não respeitava os seres que lá habitavam? Deveria ter lhe dado passagem. Poderiam ser mandados para a tão temerosa prisão Crismaline caso fossem responsáveis por uma tragédia. Talvez tivesse sido uma má idéia a decisão de conhecer a vizinhança antes de receber o chip com informações sobre seu novo lar. Estes seres eram difíceis demais de serem decifrados, diferente da maioria dos habitantes de outros planetas que visitara durante sua vida. Seus pensamentos foram interrompidos por uma voz feminina que perguntou:

– Você esta bem?

Ela era uma mulher alta, com duas pequenas bolsas de armazenagem vital na parte superior de seu torso. Não eram muito grandes ou alongadas, mas bonitas o suficiente para alguém como ele. Diferente das fêmeas que convivera, ela as expunha de forma sutil, deixando os dois primeiros botões de sua blusa desabotoados. Pareciam firmes, como se mantidos naquela posição por algum tipo de acessório.

– Oie? Eu estou falando com você. – insistiu a moça, com ligeira exasperação.

– Estou bem. – respondeu ele, incapaz de desviar a atenção dos firmes seios que se encontravam em seu peito.

– Você não parece muito bem. Devo chamar um médico? – ofereceu gentilmente enquanto deu um passo para frente, ficando mais próxima do homem.

Finalmente ele elevou seu olhar ao rosto feminino, fitando-o. A mulher lambeu os lábios, observando-lhe de um jeito quase bestial. Incapaz de responder balançou a cabeça negativamente. Aproveitando a brecha, ela aproximou-se ainda mais, quase colando seu corpo contra o dele. Parecia querer devorá-lo, literalmente. Talvez o tivessem colocado em um planeta carnívoro? Não, não… esses foram banidos da Confederação há muitos séculos atrás.

Ainda sim, não conseguia entender seu comportamento. Era o suor escorrendo em seu corpo, ou talvez a bolsa proeminente na parte inferior do torso em sua aparência humana que o tornava desejável? Antes que pudesse concluir seu raciocínio, sentiu os lábios da fêmea tocando os seus. A língua, molhada e flexível, enfiou-se em sua boca, invadindo-a. Uma mão agarrou sua nuca, forçando-o ainda mais próximo dela.

Queria libertar-se daquela coisa nojenta. Sentia que, cada vez que seu coração aumentava o ritmo, ela se tornava mais determinada a engoli-lo naquele ato sujo e primitivo. Ao mesmo tempo, existia algo que se remexia dentro dele, como se um fogo que aos poucos fosse liberado. Desesperado, empurrou a moça para longe. Em seguida, correu na direção oposta. Precisava voltar para o escritório. Era necessário entender essa raça antes de interagir com eles.

Viu a entrada do seu atual local de trabalho a poucos metros e sentiu-se aliviado. Adentrou o pequeno prédio, fechando a porta com violência. Todos o observaram sem entender o que se passava. Com os olhos arregalados e a respiração ofegante, ele se encostou contra a parede, procurando recuperar-se.

– Sr. Lorns? – perguntou uma mulher de aparência translucida cintilante. Ela flutuava, com seus cabelos lilás balançando como ondas na água.

– Sim? – respondeu ele, tentando parecer em controle da situação.

– Estávamos esperando o senhor há meia hora. – ela informou, estendendo a mão com uma pequena caixa metálica – Aqui está o seu chip e as informações pertinentes ao seu novo cargo. Seja bem vindo.

– Obrigado. – respondeu ele, estufando o peito enquanto pegava o objeto.

– A sua sala é a primeira à esquerda. – informou a mulher, em um tom gentil.

Sem maiores comentários, ele se dirigiu até onde havia sido indicado, entrando no pequeno espaço reservado para ele. Tinha somente 10 metros quadrados, o mesmo tamanho que a maioria dos banheiros em seu planeta. Ainda sim, não podia queixar-se. Pelo menos se sentia seguro lá.

Pegando o pequeno chip de dentro da caixa, ele o examinou por um momento antes de colocá-lo contra sua têmpora esquerda. Assim que o objeto tocou sua pele, tornou-se um liquido viscoso que logo desapareceu. Sentindo-o integrar-se com seu cérebro, ele se sentou, um pouco desorientado. Diante de seus olhos passaram-se imagens e conhecimentos locais, assim como todo o ciclo evolutivo da humanidade.

Em questão de minutos, ele aprendeu sobre os costumes, o vestuário, a geografia… tudo o que um humano deveria saber até seus trinta anos. Sentiu o mesmo fogo de antes tomando seu corpo quando entendeu o significado do que a mulher havia feito. Era um beijo. Algo preliminar ao acasalamento, na maioria das vezes. Aquele tipo de ação não era praticado entre seu povo. Caso estivesse interessada em procriar, bastava que a fêmea demonstrasse seu interesse apalpando com firmeza um dos sacos de armazenamento vital.

Concentrando-se, tentou entender o que havia feito a mulher agir de tal forma. Segundo seus conhecimentos da cultura humana, existia um período de flerte antes da passagem para um ato tão intimo e cheio de libido como um beijo de língua. Pensou no computador central do escritório…qual era seu nome? Lembrando-se, ordenou:

– Lucy, procure a correlação entre o beijo e minha fisiologia.

– Claro, senhor Lorns. – respondeu uma voz feminina computadorizada.

Enquanto esperava o resultado da análise, observou os móveis de seu escritório e também os pertences que lá se encontravam. Teria muito que se adaptar. Seria um difícil recomeço.

Um gráfico apareceu diante de seus olhos, com uma tela ao lado indicando sua composição fisiológica. Circulado em vermelho estava androstadienone, um feromônio responsável pela defesa de sua raça, liberado em alta quantidade durante momentos de estresse intenso. Ao lado, encontrava-se uma ficha informando a composição humana. A explicação sobre a atração que ocorria entre os sexos estava destacada. O texto indicava a mesma substância química como responsável pela produção de um alto nível de cortisol nas fêmeas, diretamente relacionado ao estimulo sexual feminino.

De repente, um leque de possibilidades se abriu diante seus olhos.

– Talvez não seja um recomeço tão difícil assim… – murmurou em voz alta para si mesmo, permitindo que um sorriso aparecesse em seu rosto.

Nota: Esse conto faz parte do universo Nébula de um Buraco Negro, romance policial de ficção científica criado por mim. Lorns é um dos interessantes  funcionários que trabalham no escritório de Logan Marshall, protagonista da obra.

Para ler o romance, clique aqui.


A MALDIÇÃO DA ROSA RUBRA

14/06/2010

Por: Larissa Caruso

Uma garoa fina caía dos céus, compartilhando a dor do luto em um choro silencioso. O brilho da lua cheia, ofuscado pelas densas nuvens, tornava a noite ainda mais triste. As luzes da cidade transformavam as poucas silhuetas que ainda circulavam as ruas, em coadjuvantes de um mundo escuro e vazio.

12 de Junho. Aquele era um dia de alegria para todos os que compartilhavam as mais intensas emoções dos seres humanos. Casais do Brasil inteiro comemoravam o Dia dos Namorados com seus amados e amadas, demonstrando a importância que possuíam em suas vidas. Entretanto, nem todos celebravam esse dia com felicidade em seus corações.

O homem de cabelos loiros espetados caminhava na calçada da Avenida Doutor Arnaldo, com a cabeça baixa. Seus olhos caramelados focavam no chão, sem o brilho costumeiro que conquistava aqueles a quem fitava. Os lábios avermelhados e finos mantinham-se colados um ao outro, em uma pequena linha de apatia e tristeza. Sua aura, normalmente repleta de carisma e confiança, exalava miséria e arrependimento.

Com as mãos sujas de lama, ele continuava seu caminho, indiferente ao mundo que o rodeava. A rosa rubra, já havia sido deixada para trás, e desta vez, seria a última que lhe daria.

Todos os anos, no Dia dos Namorados, ele alcançava o portão da casa de sua amada e sorrateiramente, deixava uma rosa no peitoril da janela. Não escrevia nenhum bilhete, nem assinava seu nome. Não era preciso. Imediatamente após dar-lhe este presente, ele, escondido dentre as sombras, a via pegando-a e tocando suas delicadas pétalas enquanto fitava a noite com um sorriso. Existia uma conexão forte entre eles, que, apesar do tempo, não havia enfraquecido.

Sempre que podia, ele a observava, procurando não interferir em sua vida. Adorava ver seu olhar meigo enquanto cuidava dos pequeninos, o jeito paciente de tratar aqueles a quem amava.  Possuía uma infinita aura de bondade e ternura, capaz de encantar até mesmo o mais frígido dos homens. Era prova disso. Ela o conquistara, fora capaz de reviver seu coração morto.

Apesar da vontade de estar ao seu lado, sabia que nunca poderia ter lhe proporcionado toda aquela alegria. Com ele, seria forçada a uma vida miserável e sombria. Sofreriam com as imposições do mundo e de sua condição. Não veria o brilho em seu semblante ao receber o carinho daqueles que compartilhavam seu sangue, a linhagem de sua família.

Em um pensamento egoísta, condenou-se por deixá-la ir. Não estaria nessa situação se tivesse insistido para que permanecessem juntos. Ainda seria capaz de senti-la em seus braços, saborear a doçura dos beijos roubados, ouvir aquela voz melódica chamando por seu nome… Antes de a vida tomar aquela para quem dera seu coração, sentia-se contente por poder vê-la trilhando seu próprio caminho. Agora, nem mesmo poderia fitá-la às escondidas, aproveitando-se de uma felicidade que não lhe pertencia. Com sua morte, não possuía mais nenhuma razão para vagar no mundo.

Um grito gutural escapou sua garganta e, apoiando-se contra a parede branca do cemitério, olhou para o céu em um pedido silencioso de misericórdia. O terno negro, coberto de barro, parecia refletir a culpa que sentia. Apesar de não querer mais reviver os momentos que havia passado há pouco, as memórias continuavam a reprisar em sua mente, atormentando-o.

Sua própria figura ajoelhada no chão, espalhando a terra molhada para os lados. Em frenesi, cavava aquele buraco imundo, a procura de uma saída, uma solução.

Levou as mãos ao rosto, deixando que lama escorresse sob sua pele alva e macia. A chuva imitava as lágrimas incapazes de brotar de seus olhos secos, complementando os dolorosos soluços que saíam de seus lábios.

Com facilidade, retirou a caixa de madeira envernizada de dentro do buraco que abriu. Jogou a tampa para longe, espatifando-a contra o tronco de uma árvore.

O odor de morte ainda impregnava suas narinas. A expressão vazia no rosto de sua amada causava-lhe dor. A palidez mórbida lembrava-lhe que aquele coração já não pulsava mais com a sede da vida. Lembrava-lhe de si mesmo.

Vendo seu corpo inerte, levantou-a em seus braços e levou-a próximo de seu tórax. Suplicando a quem quer que o ouvisse para que lhe concedesse aquele pedido, ele beijou seus lábios frios e sem sabor.

Todos os anos, ele aguardava aquele dia, o momento em que lhe entregava a rosa rubra. Sentia-se bem humorado, com o coração preenchido pelo afeto que possuía pela mulher. As cores retornavam ao mundo, tudo se tornava mais belo. Desde que decidira deixá-la, quando completou 21 anos, continuara a demonstrar seu carinho através daquela singela flor anual.

Rasgando seu próprio punho, alimentou-a com o sangue negro que corria em suas veias. Imóvel, observou-a, esperando por algum tipo de reação.

A pele de sua amada, já corroída pela ação do tempo, contrastava com a beleza daquele ser, que nunca deixaria de possuir a aparência angelical de seus vinte anos. Sabia que, devido à sua escolha, algum dia teria de encarar sua morte, mas sempre deixava aqueles pensamentos de lado, convencendo-se que se prepararia no ano seguinte.

Continuou inerte após a segunda ou a terceira tentativa em revivê-la com seu sangue. Gritou em dor e angústia ao perceber que nada poderia fazer.

Seu poder e imortalidade de nada foram capazes. Eram uma maldição, só isso. Eles o fariam lembrar até o fim dos tempos que havia encontrado sua alma gêmea e a deixado ir.

Com rapidez, devolveu-a ao seu descanso mortal, restaurando o imaculado espaço que destruíra em seu descontrole. Suspirando, plantou um leve beijo na flor que fora o símbolo de seu amor e despedaçando-a, jogou suas pétalas sobre a terra molhada. Levantando-se, deu às costas a lápide simples de concreto que adornava o túmulo, sem ler a doce inscrição deixada por sua família. ‘Aqui jaz Maria Helena Soares. Amada esposa, mãe e avó – 1933-2010’

Mesmo agora, quando estava disposto a trazê-la para seu lado, concedendo-lhe imortalidade apesar de sua aparência decadente, esse pedido lhe fora negado. A morte a levara para longe, ignorando o sofrimento causado naquele ser da noite. Só lhe restava perdurar tal punição, deixando que o coração que um dia voltara a bater por causa do amor de uma humana, apodrecesse novamente.

Nunca mais cometeria o mesmo erro. Jamais permitiria que olhares de cumplicidade e romance cruzassem os seus. O dia 12 de Junho, a partir de então, tornar-se-ia amaldiçoado. Transformaria todo o amor em miséria. Deixaria pétalas rubras em todo o mal que causasse. Ninguém escaparia. Compartilharia seu sofrimento com o mundo, da forma mais íntima possível: ele os faria sentir a perda na pele.

Dedicatória Especial: Editora Draco e seu lançamento “Meu Amor é um Vampiro”.


O PREDADOR PERFEITO

07/06/2010

Por: Larissa Caruso

As nuvens negras encobriam a lua e as estrelas, ofuscando a luz do céu. Apesar do horário, a movimentação na rua continuava. O barulho do motor dos carros ecoava na vizinhança, mesclando-se com o som dos últimos ônibus que ainda circulavam. Transeuntes, ocupados com suas preocupações mesquinhas e sem valor, seguia seu caminho sem sequer notar aqueles ao seu redor. Mas nem todos agiam desta forma.

Escondido no telhado de um estabelecimento comercial, ele observava a todos com seus olhos amarelados. Ninguém lhe passava despercebido, nem mesmo aqueles que habitavam as calçadas, protegendo-se do frio com roupas velhas e cobertores de papelão. Saliva escorria de seus dentes afiados enquanto pensava em sua próxima vítima. Estava faminto. Precisava se alimentar.

Sabia que era necessário cuidado. Não deveria vacilar. Encontrava-se em um ambiente moderno rodeado de perigos para criaturas como ele. A noite o definia, o acolhia. O frio não o incomodava. A altura lhe agradava. Agilidade fazia parte de sua natureza. Era o predador perfeito e como sempre, estava pronto para caçar.

Não o fazia somente por ser uma necessidade vital. Os gritos de terror eram como uma melódica sinfonia para seus ouvidos. Gostava de sentir suas garras restringindo os movimentos da vítima, e da sensação de poder que vinha de subjugá-la. Ansiava por experimentar o doce néctar da primeira mordida, onde o sangue, ainda quente, parecia derreter em sua boca.

Suas ações normalmente passavam despercebidas por aqueles que circulavam a vizinhança. Preferiam se trancar em suas casas, ignorando os gritos de dor das vítimas. Sabiam bem o que ocorria, entretanto, confortados pelo pensamento de que nunca passariam por aquela situação, eles a deixavam acontecer, noite após noite. Não estavam interessados em mais problemas.

Mesmo assim, era bom no que fazia. Com seus sentidos aguçados, era capaz de ouvi-los e avistá-los antes mesmo de se aproximarem. Saía do local do ataque, deixando somente os rastros de sangue da vítima que levava consigo, para se alimentar. Através de sua velocidade, sumia na noite, despistando aqueles que ousavam persegui-lo.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo doce odor de uma presa. Com um gesto brusco de sua cabeça, focou seu olhar naquele que atraíra sua atenção. Observou a figura que se apressava para alcançar seu destino. Era alta e grande, diferente da maioria que normalmente caçava. Uma barriga protuberante indicava sua alimentação farta. Os olhos possuíam uma gana invejável pela vida e o pescoço alongado, exibia-se para o mundo.

Enquanto andava na calçada, parecia despreocupado com tudo que o rodeava. Murmurava para si mesmo algo parecido com uma canção. Mal sabia que o observavam, considerando matá-lo para saciar suas necessidades. Como a maioria, acreditava que aquilo não passava de mais uma noite, onde seguiria com sua rotina. Ah, doce ilusão!

Pacientemente, observou o individuo direcionando-se para uma rua estreita, mais deserta do que a avenida principal onde se encontrava no momento. Enquanto o fazia, preparou-se para o ataque. Inclinou seu torso para frente, pronto para saltar do prédio e surpreendê-lo. Sorriu ao vê-lo caminhando para sua própria morte. Só mais alguns segundos…

Com agilidade, saltou do telhado, aterrissando alguns passos a frente de sua vítima. Com os olhos arregalados em surpresa, a presa o fitou e então entendeu. O primeiro grito de terror ecoou no ar, fazendo-o tremer em êxtase. Apesar do peso extra que carregava em seu corpo, ele correu, tentando arrumar abrigo em lugares onde não seria capaz de alcançá-lo. Antes que pudesse esconder-se, o predador o atingiu com sua pata dianteira, fincando suas garras afiadas nas costas daquele que ousava resistir.

Ainda sim, a vítima continuou a correr, irritando-o ainda mais. Sibilando, mostrou que não estava brincando. Avançou com um ágil pulo em direção a vítima, procurando prendê-lo com ambas as patas. Um novo chiado de dor escapou do jantar, quando foi pego por seu predador. Com seus dentes afiados, aproximou-se daquele pescoço alongado e o mordeu, quebrando-o com um simples movimento. Lambeu os beiços para saborear ao máximo as primeiras gotas de sangue e então, ronronou em comemoração.

O felino de rua pegou o roedor por seu rabo e correndo, sumiu na noite a procura de um confortável esconderijo para apreciar sua refeição.


A TRAIÇÃO

31/05/2010

Por: Larissa Caruso

Um rancoroso uivo foi o único aviso que teve antes de ser atacado. O barulho da poderosa mandíbula fechando-se contra o ar soou próxima ao seu ombro direito deixou claro que escapara por pouco. Precisava dominá-lo e lembrá-lo quem era seu mestre. Ele era o senhor da noite, o rei da escuridão. Ninguém questionava sua autoridade sem receber a devida punição.

Outras três bestas de pelos negros projetaram-se com longos saltos em sua direção. Mais quatro tentaram golpeá-lo pelas costas. Pretendiam matá-lo. Como conseguiram planejar tal emboscada sem que percebesse? Era capaz de monitorar sua mentes, suas emoções. Sabia que seus servos eram indisciplinados, mas não esperava uma traição. Haviam cometido um grande erro.

Sua imagem transformou-se em um borrão alvo e negro enquanto desviava com velocidade sobrenatural daqueles que procuravam machucá-lo. Ganidos de dor intercalavam o silêncio cada vez que uma das criaturas atingia o chão, estonteada por sua própria força. Levantando os braços para o ar, sentiu o poder de seu elemento. Como no dia em que destruíra os infiéis, absorveu a noite dentro de sua essência novamente. A luz do luar desapareceu, assim como o brilho das estrelas. Não restou nada além da escuridão.

Os lobisomens o atacaram novamente, unindo suas mentes e bloqueando-o para que não pudesse prever de onde os golpes viriam. Foi então que entendeu como haviam planejado tudo sem que percebesse. Deixando que a ira o dominasse, fechou o punho direito com um gesto brusco, imaginando a garganta daqueles que o traíram sendo destruídas pela sua força.

Seus servos congelaram no ar, choramingando enquanto suas traqueias eram esmagadas. Mesmo assim, eles se curavam antes que a morte os alcançasse. Agora, entendia o seu erro. Deveria ter usado menos de seu sangue, adicionado uma pitada a mais de submissão. Tinha que ter usado mais cautela ao invés de criar centenas deles sem experimento prévio. O desejo de livrar o mundo daquela ameaça tornou-se ainda mais forte, não para o seu próprio bem, mas para o bem de seus filhos. Conseguia ver a fome nos olhos bestiais daqueles que enfrentava, dispostos a qualquer coisa para extinguir sua família.

O poder pulsou mais forte dentro dele, desintegrando, aos poucos, aquele corpo humano que escolhera para a vida eterna. Sabia que se os destruísse, tornar-se-ia um com a noite, consumido pelo poder que conjurara. Não importava. Precisava fazê-lo. Em sua mente, visualizou aqueles que compartilhavam o seu sangue na forma de um lobo, localizando um por um. Com um estalo de seus dedos, sentiu a conexão com seus servos ser quebrada. Carne, pele e sangue voaram em todas as direções, levando aqueles que nos ameaçavam a total extinção. O mundo estava livre dos lobisomens.

De certa forma, eles haviam vencido. O objetivo dos traidores era matá-lo e hoje, ele abdicou de sua imortalidade para salvar seus filhos. A matéria de seu corpo começou a se dissipar ao mesmo tempo em que o brilho retornou para a lua e as estrelas. Um último suspiro deixou seus lábios antes que se fundisse com seu elemento.


UMA QUESTÃO DE NEGÓCIOS

24/05/2010

Por: Larissa Caruso

Nota: Este conto é uma narrativa que faz parte do romance chamado Anátema criado pela autora. Este universo possui uma mistura de fantasia com ficção científica e elementos de dark fantasy. Toda a obra é focada em magia e seus elementos. Para ler a obra, visite o link: http://www.larissacaruso.com/anatema.pdf

Este era o momento ideal para agir. Com um último olhar em direção ao local onde se encontrava, a jovem abriu a porta de ferro. Os gritos desesperados dos prisioneiros a atormentavam, juntamente com seu instinto, que implorava para que os ajudasse. Homens, mulheres, até mesmo crianças… todos sendo mantidos como cobaias de um experimento macabro patrocinado pelo rei. Espadas e cavalos, já não considerados suficientes, aos poucos davam espaço a armas de fogo e engenhocas. Tudo em nome do poder.

Balançando a cabeça negativamente, ela adentrou a sala de máquinas, ignorando todas as súplicas. Estava lá a negócios. Não podia bancar a heroína.

O teto de mais de dez metros de altura oferecia abrigo para grandes monstros metálicos que assoviavam a cada batida de seu coração. Esteiras de madeira os conectavam de forma intricada, sumindo e reaparecendo com estranhos objetos. Pedras e frascos de diversas cores brilhavam ao serem cuspidos pelas máquinas, pulsando levemente. Tubos flexíveis emaranhavam-se no centro, onde uma coluna de vidro protegia um pequeno ornamento que emanava uma luz dourada.

– O catalisador… – murmurou para si mesma.

Observou seus arredores com cautela. Furtivamente, iniciou seu caminho em direção ao objetivo de sua missão. Sentiu um calor forte rodeando-a assim que deu alguns passos para frente. O catalisador pulsou mais forte, parecendo pressentir sua presença. Decidindo que não se assustaria facilmente, ousou se aproximar ainda mais.

Um clarão tomou todo o galpão, cegando-a momentaneamente. O barulho de vidro sendo estilhaçado a ensurdeceu. Instintivamente, levou os braços a altura dos olhos, protegendo o rosto dos cacos que voavam em todas as direções. As máquinas responderam com rugidos ameaçadores, seguidos por uma densa fumaça branca. Toda a sala tremeu diante da força daqueles monstros.

Precisava encontrar o catalisador. Era incapaz de ouvir qualquer coisa além dos altos assovios da maquinaria, mas sabia que logo homens armados verificariam o que estava acontecendo.

A sua esquerda, lhe avisou seu instinto. Virou-se sem pensar e sorriu ao ver o que lá se encontrava.  Encoberto por fumaça estava um bracelete dourado, emanando energia em um tom fruta-cor. Ele flutuava lentamente, como se possuísse vida própria.

– Que maravilha… – bradou ela, irritada – O catalisador é um artefato mágico. Agora estão usando magia como fonte de energia das engenhocas?

Ponderou por um momento se realmente deveria tocá-lo, mas logo seus pensamentos foram interrompidos por um grito masculino, que ordenava:

– Tem alguém ali, próximo ao centro. Peguem-no!

Sem perder tempo, apanhou o artefato e começou a correr. Precisava sair de lá o mais rápido possível. Perguntou-se novamente o porquê havia aceitado aquela missão, e então se lembrou.

***

Alyvia fechou a porta da taverna, abafando o som de risadas e música que vinham de dentro. Observando seus arredores ligeiramente, começou a caminhar em direção a área residencial mais pobre. Apesar da escuridão da noite, as lamparinas da cidade ofereciam o brilho de suas chamas, auxiliando-a a traçar seu destino.

Deixou-se distrair por um momento, pensando nas informações descobertas naquele dia. Mapeou os detalhes em sua mente, tentando organizá-los para que pudesse colocá-los no papel de forma rápida e precisa. Enquanto pensava, levou a mão aos cabelos loiros e retirou a presilha prateada que o segurava em um elaborado coque. Os fios lisos cascatearam ao redor de seu pescoço e ombros, deixando-lhe mais a vontade em seu atual figurino.

Ao executar o movimento, sentiu uma mão forte agarrando seu braço. Antes que pudesse reagir, foi puxada para uma estreita rua com pouca iluminação. Uma palma calejada calou sua boca, ao mesmo tempo em que um corpo esguio pressionou-se contra o seu. Em um ato instintivo, levou a presilha de bico pontudo contra o torso de seu opressor, como se segurasse uma de suas adagas.

– É assim que você me recebe? – a voz familiar sussurrou em seu ouvido, arrepiando-a.

Seu coração palpitava, mas não mais de medo. O luar focou sua luz no rosto do homem assim que ele deu um passo para trás. Cabelos loiros curtos e encaracolados lhes concediam uma face angelical que era desmentida pelos intensos olhos cinza que a fitavam com malicia.  O homem soltou uma melódica risada, que fez com que os joelhos da jovem tremessem. Recuperando-se com uma respiração profunda, ela perguntou:

– Luke! O que faz aqui?

– Vim me certificar que estava bem. Estava demorando e…

– É óbvio que sim. Já falhei alguma fez? – interrompeu a moça, arqueando as sobrancelhas. Sem esperar que respondesse, continuou – Vamos logo, antes que notem algo de errado.

Luke a guiou pelas ruas da capital de Ishdor, locomovendo-se com facilidade invejável. Poucos ainda caminhavam nas ruas e em sua maioria eram guardas fazendo a ronda noturna. Alguns homens de cavalo com trajes de viagem também circulavam, entrando ou saindo da cidade. O cheiro forte de barro molhado e estrume empesteava a vizinhança, apesar da chuva ter varrido a pior parte da sujeira. A jovem franziu o nariz, segurando a respiração enquanto caminhava. Por um momento, desejou que a tecnologia se difundisse também entre os plebeus.

Pararam logo a frente de uma estalagem simples com tijolos gastos. Sem nenhuma pergunta, o estalajadeiro os cumprimentou quando entraram. Sabia que este era o principal motivo da escolhe de Luke. Era um lugar onde grandes gorjetas significavam rápido esquecimento. Perfeito para aqueles que não queriam ser notados.

Assim que chegaram ao quarto de casal que haviam alugado, Alyvia sentou-se para tirar seus sapatos. Luke a observou em silêncio, parecendo entretido com algo que via. Apressando-o, ela pediu:

– Preciso de um papel e um lápis. Rápido.

Ele sorriu ao ver a expressão séria em seu rosto e atendeu seu pedido sem delongas. Com traços firmes, a jovem delineou aquilo que havia descoberto naquele dia. Enquanto o fazia, explicou:

– O catalisador esta localizado em um galpão próximo a Rern, cidade ao sul da capital. Tem uma casa de hospedagem a direita e um grande muro ao redor da propriedade. Durante o dia, haverá mais de trinta homens rondando o local, dentre eles alguns mercenários. À noite, maior parte se recolhe, deixando somente dez circulando o perímetro. Nenhum deles possui acesso a sala de máquinas.

– Certo. E qual o plano?

A jovem o observou, depois disse com simplicidade:

– Eles procuram por bruxas, não? Então serei uma delas.

– Ousado. – foi a única palavra dita pelo homem, que a observava com admiração.

Ela lhe ofereceu um meio sorriso, satisfeita com a resposta recebida. Sabia que ele possuía diversas perguntas, mas não as faria. Esperava que ela executasse a missão sozinha, provando seu valor. Tinha tudo planejado. Adorava surpreendê-lo e dessa vez sabia que não seria diferente. Não deixaria nenhuma brecha para que argumentasse contra o acordo feito entre eles.

– Quando? – ele perguntou, desviando seu olhar para o papel diante de si.

– Amanhã ao entardecer. Precisarei de você antes do amanhecer.

– Certo, nos encontraremos no terraço do galpão. Vou esperar até que soe a última badalada da hora seguinte. Este é seu teste final. Não me decepcione. – concluiu ele.

Sentiu um arrepio de excitação percorrer seu corpo enquanto sorria para ele. Mal podia acreditar que finalmente seria considerada digna de uma sociedade com aquele que era seu tutor e amante. Parecia que explodiria de felicidade. Era jovem e, graças aquele homem, bem sucedida. Sabia que seus contratos autônomos de alta confidencialidade, como ele os chamava, nada mais eram do que uma desculpa para roubar informações e tecnologia. Não se importava, com tanto que pagassem bem.

– Ah, e… Lyvie? – ela o fitou ao ouvir seu apelido carinhoso e ele continuou – Adorei o vestido.

O olhar faminto fez com que entendesse o significado de sua frase. Negócios encerrados. Agora era hora de diversão.

***

Alyvia sentiu suas pernas tremerem com fraqueza ao alcançar a porta que levava ao terraço do galpão. Abrindo-a, observou os arredores a procura de seu salvador. Ainda podia ouvir as vozes de seus perseguidores, mas não chegariam a tempo.

Voando sob o chão do terraço, viu um pássaro mecânico esperando-a, já com seu amor a bordo. Sua estrutura metálica era simples, sem nenhum tipo de revestimento. Na armação principal, acima das pequenas rodas, encontravam-se dois assentos de couro, o do piloto, ocupado por Luke, e outro logo atrás. As finas hélices, paralelas ao chão, giravam rapidamente, criando uma grande ventania ao seu redor.

Sem perder tempo, ela caminhou em direção a beirada do terraço, aproximando-se da aeronave. Seu futuro sócio imediatamente perguntou:

– Cadê o catalisador?

Alyvia abriu a mão que segurava o bracelete, mostrando-o para ele. Diferente dela, não pareceu surpreso ao ver que se tratava de um artefato mágico. Antes que pudesse colocá-lo em um lugar seguro, Luke o tomou de sua mão, observando-o com mais cuidado.

– Não temos tempo a perder. Preciso de sua ajuda pra subir, me dê sua mão.

Com um olhar pesaroso, ele disse:

– Desculpe, Lyvie querida, mas não posso me associar com alguém terá um retrato falado e uma recompensa por sua cabeça.

Os olhos da jovem se arregalaram. Fitou a porta, sabendo que a qualquer momento esta se abriria.

– Chega de brincadeiras! – pediu ela, com o coração agitado.

– Quem me dera estar brincando… – suspirou ele, aumentando a altitude do girocóptero – Mas entenda, minha querida, é uma questão de negócios. Foi bom enquanto durou.

Acenando para a loira, ele se despediu com um sorriso. O pássaro mecânico tornou-se mais distante no horizonte enquanto ela o observava, desconsolada. Ouviu o barulho de espadas sendo desembainhadas atrás de si, e uma voz masculina anunciou:

– Fim da linha, ladra. Renda-se.

Suspirando, ela ponderou suas possibilidades. Poderia render-se e ser torturada até a morte, ou poderia arriscar tudo em uma única tentativa. Sorriu para si mesma. Acenando para seus perseguidores, ela pulou.